Tenho lido nos últimos dias, durante meu horário de almoço, o livro "Quase Memória" de Carlos Heitor Cony. Conheci o Cony ainda na escola, por volta dos meus 13 ou 14 anos, quando matava as aulas de educação física na biblioteca (super nerd) e agora, 15 anos depois, lendo mais uma de suas obras, não me surpreende ter gostado tanto já naquela época.
Especificamente nesse livro ele descreve sua relação com o pai (não dá para saber muito bem o limite entre a realidade e a ficção), porém, de um modo tão preciso, tão detalhado, tão minucioso, que consegue nos transmitir sensações como se as tivéssemos vivenciado.
Me chamou a atenção um trecho em que ele descreve sua percepção e seus sentimentos com relação à época do ano quando ajudava seu pai a preparar os balões para as festas juninas. Fala com detalhes dos cheiros, das cores, da textura do papel e, por fim, fala do balão que o pai fez para ele, o qual guardou com cuidado por muitos anos.
"Esse balão, que nunca soltei, ficou amarrado à minha infância, se um dia eu chegasse a rei ou a bispo e tivesse direito a um escudo, nele mandaria gravar esse balão, logotipo do meu mundo, emblema de mim mesmo" (CONY, 1995, p. 100).
Impossível não lembrar de fatos da minha própria vida e não me agarrar a elas depois de ler esse livro. Sou extremamente nostálgica e muito apegada ao passado (Será por isso que gosto tanto de antiguidades?!). Penso que é dele que somos feitos.
Assim como o Cony, também sou detalhista, e minha memória não me engana; lembro-me de coisas muito pequenas de minha infância. Às vezes, uma música, ou um cheiro, ou a luminosidade de um ambiente, é o suficiente para me levar de volta ao passado.
Quando chove, por exemplo, me lembro de que ficava da janela vendo a chuva derreter as pontas dos lápis de cor que eu havia apontado e jogado no quintal. Depois de derretidas, surgiam várias matizes e laguinhos coloridos e eu queria que chovesse de novo para ver o tal fenômeno colorido.
Ainda hoje, em dias muito quentes, consigo sentir o gosto do suco de manga bem gelado que minha mãe fazia com os frutos da grande mangueira que havia em nosso quintal.
Semana passada fui a Vila Velha (minha cidade natal) visitar o convento da Penha.
O raio de sol entre as folhas da mata e o cheirinho de mato, me fizeram ouvir até a voz da "Tia" da 2ª série, quando levava aquela turma de crianças para fazer piquenique, dizendo: -"Fiquem todos juntos, em fila!" (Como se fosse possível, manter quietas e em fila 40 crianças de 8 anos de idade, todas eufóricas com o passeio incomum).
No caminho para o Convento, cumpri uma promessa que fiz para a Lilly do
Blog da Reforma, e passei para tirar uma foto de uma casa linda, a qual eu sempre ficava namorando quando era criança porque ela tinha um nome: "Villa Nazareth". Para o imaginário de uma criança, uma casa que tem nome é uma casa mágica.
E cá entre nós: ela não continua parecendo mágica?